27 de set. de 2026

O país de João, María Teresa Andruetto

Esse ano tem sido estranhamente confuso, passou rápido ao mesmo tempo que nem tão rápido assim...Um ano bem esquisito, ao qual não consigo colocar os pensamentos em ordem, digo da forma que eu estava acostumada, tenho sentido muitas emoções ao mesmo tempo, passado por sensações complexas e experimentado mil e uma coisas...

Introduzo este post dessa forma porque é justamente assim que tenho passado os meus dias: Fiquei mais offline, um pouco distante tanto do canal quanto daqui do blog, porque, durante algum tempo, o simples ato de viver parecia acontecer em um mar revolto. Havia muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, e confesso que nem sempre consegui encontrar espaço para transformar tudo isso em palavras, tanto aqui no blog quanto, até mesmo no meu próprio diário. De qualquer forma, e para todos os efeitos, necessito  escrever, bloggar, talvez seja essa uma das poucas coisas que continuam fazendo sentido para mim em meio à confusão de viver... Bom até o fim dos tempos (diga-se a internet), estarei aqui blogando.





María Teresa Andruetto, autora argentina e vencedora do Prêmio Hans Christian Andersen em 2012, conta em O país de João a história de duas famílias que decidem abandonar o campo para fugir da miséria e migrar para a cidade. Lá, os jovens João e Anarina se conhecem e ambos passam a ser protagonistas de uma nova vida. Com tradução da igualmente prestigiada escritora Marina Colasanti, O país de João é uma narrativa sensível sobre amor e esperança. 

Em dez capítulos curtos e diretos, María Teresa Andruetto narra paralelamente as trajetórias de João e Anarina, desde os problemas que suas famílias enfrentaram no campo, passando pelas dificuldades na cidade de Vila Papel e chegando ao momento em que suas vidas se cruzam e, juntos, finalmente enxergam uma luz no fim do túnel. O país de João nos permite uma reflexão sobre a miséria, a humanidade, a solidariedade e, acima de tudo, sobre os sentimentos que uniram os protagonistas desta delicada narrativa: amor e afeto. 

Há livros que, mesmo sendo breves, permanecem conosco por muito mais tempo do que esperávamos, e O país de João, da escritora argentina, foi uma dessas leituras que para mim, apesar de ser um livro infantil, de forma alguma deixa a desejar na narrativa simples.

Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a escrita da autora, pois a construção sintática é bastante peculiar e apresenta repetições estruturais que parecem fazer parte da própria estética da narrativa, a linguagem se aproxima, em alguns momentos, de uma espécie de cadência quase oral, tornando a leitura acessível e contribuindo para o caráter poético do texto. Ao mesmo tempo, senti que a tradução para o português conservou essa estrutura, o que, em determinados momentos, tornou a leitura um pouco mais travada, justamente pela recorrência dessas repetições e uma sintaxe que soa fabular e oral ao mesmo tempo. 

Durante a leitura lembrei muito de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, principalmente pela presença das famílias retirantes, pelo êxodo provocado pela miséria trazida pela seca e pela maneira sensível de retratar a fome, a pobreza e a desigualdade social. Essa comparação, certamente, não significa que os dois livros contenham a mesma história ou trabalhem os mesmos recursos literários, o que encontrei entre eles foi uma espécie de aproximação na maneira como a sobrevivência atravessa a vida das personagens. Tanto em Graciliano Ramos quanto em Andruetto, existe uma humanidade que persiste mesmo quando quase tudo ao redor parece negar às personagens o direito de simplesmente viver, enquanto em Ramos temos uma história muito mais árida, sofrida e sem um final feliz, em Andruetto temos um final mais agradével e esperançoso.  

Enfim, é um livro muito sensível e poético! Apesar de ser uma leitura rápida, terminei em menos de um dia, fiquei bastante sensibilizada, talvez porque, de alguma maneira a autora consiga falar de temas muito duros através de uma narrativa delicada, construída a partir do olhar de duas crianças que tentam simplesmente encontrar um lugar para existir. Gostei muito de acompanhar essa história e, sobretudo, da maneira como ela permaneceu na minha cabeça depois que terminei a leitura.

Esse foi o primeiro livro infantil argentino que li pelo aplicativo do Mec livros, o qual você acessa pelo seu gov e pode usufruir de um acervo impressionantemente variado e bem acurado que vai desde ficção científica à grandes clássicos da literatura mundial e livros do mercado editorial um tanto recente. Enfim, foi uma boa experiência com o aplicativo de forma geral, o que ainda me deixa decepcionada é o número de volumes que você pode pegar emprestado, sinceramente é muito pouco para o que eu estou acostumada a ler, ainda mais que finalmente depois de meses estou saindo de uma ressaca literária, mas isso é tema para um próximo post.


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