Hoje, um domingo de descanso e paz com chuvinha, acordei muito reflexiva, relembrando algumas aulas que tive ao longo da minha graduação, e alguns temas bem específicos tanto de critica quanto análise literária, o que me fez revisitar O jardim das Oliveiras, da Adélia Prado, uma grande poetisa e escritora brasileira, que se encontra no auge dos seus 90 anos. Nesse livro em específico temos reunidos poemas com temáticas vivas na obra da autora, como o conflito essencial entre luz e sombra, fé e dúvida, poesia e silêncio. O próprio nome da obra já nos indica o que vamos encontrar nessa antologia, pois há fortes ressonâncias bíblicas tão caras à autora, isto é, uma alusão direta ao Jardim do Getsêmani, onde Jesus orou na noite anterior à sua crucificação, recebeu o beijo de Judas e foi preso (Capítulo 26 do evangelho de Mateus).
Agora, caro leitor, você deve estar se perguntando o porquê exatamente das minhas reflexões me levaram novamente à essa obra, foi pelo simples fato de possuir contrastes, e versos com grande força simbólica, o sagrado e o cotidiano se entrelaçam com rigor e toques de desvario deliciosos. Enquanto folheava as páginas lembrei que não havia feito, ainda, uma resenha aqui no blog, e bom, cá estamos! Essa foi uma das leituras do ano que salvou-me do mundo que insiste em nos negar o deleite à vida e a existência. Cada página é um respiro de vida, não sem ser atravessado pela vida contida em cada verso.
"A felicidade não é uma palavra humana" - pág. 60
Ora, a poeta elabora uma reflexão radical sobre a origem da linguagem poética e seu papel diante do mundo, “era Deus quem doía em mim”, escreve, em um dos momentos tidos como um dos mais cortantes da obra. A poesia, dessa forma, aqui se mostra em ecos metalinguísticos, diálogos com a própria história literária da autora, desde o nascimento de Bagagem até a comunhão mais serena com o mistério. Aliás, a critica especializada pontua que nessa antologia há diversas vozes: as vozes do povo, de Minas, do divino e da própria vida íntima, sendo que tudo isso se entrelaça com extrema precisão sonora, clareza lírica e uma compaixão crescente pela condição da existência humana. Incrivelmente comovente, deliciosamente lírico e potente...Uma leitura que me marcou e pediu uma revisitação (ainda nesse ano)!
Cada um dos versos se entrelaçam, é quase uma "continuação", de perspectivas diferentes porém uníssonas, é quase um gritar sobre a vida, sobre o passado e uma nostalgia presente nos versos, que dá um gosto de ser remexida pela autora, além disso as grandes dúvidas de fé e prazer estão latentemente presentes. Todas as características supracitadas e até mesmo o ritmo de leitura de alguns poemas me remeteram, fortemente, a uma música maravilhosa, Sexo, Violencia y Llantas, da Rosália, do álbum "Lux", carregado de musicalidade, lirismo e com referências ao movimento barroco europeu:
"[...]
Quién pudiera
Vivir entre los dos
Primero amaré el mundo
Y luego amaré a Dios
Quién pudiera
Venir de esta tierra
Entrar en el cielo
Y volver a la tierra
Que entre la tierra
La tierra y el cielo
Nunca hubiera suelo
En el primero
Sexo, violencia y llantas
Deportes de sangre
Monedas en gargantas"
Adélia Prado, portanto, trás poemas cheios de emoções fortes, onde o sublime e o prosaico se chocam, dão forma as narrativas, seja pela perspectiva nostálgica, um poema sob a ótica infantil, seja na perspectiva de dimensões entre o divino e humano que se colidem, fundem e criam algo com uma força espetacular e extremamente tocante. Do começo ao fim da obra foi um caminhar tão extraordinário, me senti tão impactada que realmente não sou a mesma desde a primeira leitura que fiz no começo deste ano, já sou uma outra versão de mim mesma que adentrou essas águas....Falar de literatura, de amor, de sagrado e profano é extraordinariamente poético, tira o folego e leva o leitor não somente para o mais íntimo que um poeta pode construir, mas também, para o seu próprio cerne, o qual é voraz e sedento para encher a alma e saciar sua eterna fome e vontade de transcender.
Adélia Luzia Prado de Freitas é uma poetisa, professora, filósofa, romancista e contista, ligada ao Modernismo. Considerada a maior poetisa viva do Brasil, sua obra retrata o cotidiano com perplexidade e encanto, tornando-o universal, político e social, a autora também recebeu os prêmios Camões e Machado de Assis (ABL), conquistados em 2024. A presente edição de O jardim das oliveiras, é publicado pela editora Record, chega aos leitores com capa do premiado designer Leonardo Iaccarino, criada a partir da tela Cactus (1983), da artista plástica mineira Fani Bracher. Lembrando que essa resenha foi em parceria com a Livraria UNESP, Localizada no número 108, Praça da Sé, Centro de São Paulo, apoiadora do Exploradora de páginas desde 2023!
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